segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Tales of an alien planet #2
Tenho de admitir, sou um alienígena postiço. Posso me sentir totalmente deslocado, como se estivesse no planeta errado, mas eu nasci aqui mesmo, em meio a vós. Acho que já vim com defeito de fabricação, então.
Eu sempre fui uma pessoa bem sozinha. Bem desapegada. Eu tenho amigos, claro. E nós saímos, sorrimos, nos divertimos. Mas não tenho histórias bonitas de posteres na parede pra contar. Não consigo transformar a vida em um conto com belas palavras. Nunca tive alguém que me guiasse, que me desse conselhos. Nunca tive em quem me apoiar. Nunca tive pra onde ir, a não ser pra dentro da minha mente.
Por isso, não sei nem se tenho muitas histórias pra compartilhar. Uma pessoa importante uma vez perguntou sobre a minha vida e eu fiquei sem ter o que dizer direito. Eu não estava mentindo, só não tinha o que dizer.
Eu olho pra trás e vejo o grande vazio que a minha vida foi. As pessoas dizem que é bobagem, que eu tenho muita coisa pra viver, mas elas não entendem. Elas não entendem o que é viver de forma nula, se tornar o vazio. O que é vegetar por 20 longos anos. Não entendem que hoje eu sou só uma pequena sombra da pessoa que poderia ter sido.
"Você já nasceu morto."
Essas são as palavras que estão gravadas no ponto mais profundo da minha alma. Quando as ouvi pela primeira vez, me identifiquei na hora. Era algo que nunca foi me dito, mas que eu sentia todos os dias na pele.
Porém, não é aí que a nossa história começa. Ela se incia bem antes, com um garoto inteligente, metido, agressivo, desapegado, extremamente confiante e muito sem noção.
Quando pequeno, eu era absurdamente quieto. Difícil de acreditar, dado a matraca do caralho que sou hoje. Eu chupava dedo e ficava segurando uma coberta o dia todo. Não lembro de muito daquela época, minha memória é ruim. Eu nunca dei muito valor à memória, explicarei o porquê depois. O que eu lembro é que olhava ao meu redor e me perguntava "porque" o tempo todo. Por que aquela ali é a minha mãe? Por que o meu pai é tão bravo? Por que as pessoas sorriem, choram, se machucam?
Ainda criança, viciei em Cavaleiros do Zodíaco. Eu e meu irmão, um com 5 e o outro com 3, respectivamente, assistíamos todos os dias. Até a minha mãe via junto. Infante como era, não sabia diferenciar direito o anime da realidade. Eu via a resolução, a honra e o senso de justiça daqueles personagens que sacrificavam sua vida em prol dos outros e me perguntava o porquê disso tudo também.
Mas aquilo ficou gravado em mim. Talvez por eu ser pequeno e ter pouca coisa na cabeça. Talvez porque eu já era diferente, mesmo naquela época. Ou simplesmente porque sempre me faltaram uns parafusos.
Então, aos 5 anos, criei o meu primeiro valor: a Honra.
Tá, eu não pensei comigo e decidi "ah, criei um valor, daqui em diante vou seguir isso". Eu era pequeno demais, foi algo completamente implícito.
Com o tempo, fui percebendo que ninguém era assim. O pessoal da minha idade eram apenas crianças, eles não tinham nada na cabeça. E os mais velhos transpiravam egoísmo, só olhavam pros próprios umbigos.
Isso me desanimou, me calou e me afastou mais ainda das pessoas.
Também lembro que quando pequeno, eu idolatrava o meu pai. Chegava a ficar doente quando ele não estava em casa. Ele era o exemplo de maturidade, autoridade, inteligência. Ele era tudo pra mim. O cara era uma calculadora humana. Sabia fazer qualquer conta de cabeça. Qualquer conta MESMO. Ele sabia a capital de todos os países, sabia onde ficava tudo. Me recordo de pegar o Atlas lá de casa só pra ver se aprendia alguma coisa pra ficar igual a ele.
Meu pai impunha respeito, não levava desaforo de ninguém não. E eu queria ser igual a ele. Queria crescer logo, estudar bastante pra ser igual ao meu pai.
Lá pelos 7, criei o meu segundo valor: o Respeito.
Aprendi com o meu pai que se deve respeitar as pessoas o tempo todo, mas que quando elas te desrespeitam, você tem de mostrar que é educado, mas não é trouxa. Tem de revidar. E revidar pesado, pra mostrar que quem brinca com você toma no cu firminho. E muito colega folgado meu apanhou por casa disso.
Mas nós mudamos de cidade. O pai que eu divinizava se tornava mais e mais relapso conforme eu crescia. O meu jeito distante e metido fez com que eu tivesse uma dificuldade enorme em arranjar e manter amigos. Mas eu ainda era um garoto confiante. Eu tinha os meus valores. Me tornei até troll com o tempo. Pena que foi por um curto período de tempo. Eu sinto muita falta daquela confiança toda e passei os últimos anos tentando recuperá-la. Mentindo pra recuperá-la. Não só para os outros, mas principalmente pra mim. Não tem adiantado muito, eu ainda não consigo me lembrar como conseguia não ter nem um pouco de medo de nada.
Pra ilustrar, provar que não estou mentindo e finalizar, vou contar uma história desses tempos.
Eu não lembro direito quantos anos tinha. Uns 9, 10, mais ou menos. Começa com o meu irmão me chamando na sacada, todo empolgado.
_Olha lá, tá vendo? Um coelho!
Eu me perguntei o que um coelho fazia ali na nossa rua. Nunca tinha visto e nunca vi nenhum pra esses lados novamente. Mas isso não importava. Subitamente, um pensamento veio na minha cabeça.
Esse coelho vai ser meu.
E eu sabia exatamente o que tinha que fazer. Sem medo, sem planos mirabolantes. Eu desci as escadas correndo, abri o portão, passei pelo coelho e fui até a rua de baixo. Lá, haviam uns garotos brincando. Eu coloquei uma expressão de desesperado na cara e fui até eles.
_Cara, me ajuda! Meu coelho fugiu!
_Calma, onde ele tá, qual é o nome dele? A gente te ajuda, não se preocupa.
Disse um nome qualquer, mas ele não respondia pelo nome por que eu tinha acabado de ganhá-lo. Eu praticamente não pensei em dizer isso, simplesmente saiu. Com uma naturalidade monstruosa. Guiei eles até o terreno onde o coelho estava. E os caras correram atrás do bicho pra mim. Eu sabia que não conseguiria fazer isso. Nunca fui muito bom nos esportes.
Um deles conseguiu pegá-lo e trouxe na minha mão. E pronto, eu tinha conseguido o coelho e não tinha levantado um dedo pra isso. Agradeci-os, peguei o coelho e subi super feliz as escadas. Respondi ao espanto dos meus pais em como eu tinha conseguido um coelho com um simples:
_Ah, eu fiz pegarem pra mim.
Na maior inocência do mundo. Aquilo não significou nada pra mim naquele instante, mas analisando hoje esse provavelmente foi o melhor momento da minha vida. Naquele minuto, eu era quem hoje eu luto todos os dias pra tentar ser. Não alguém que engana os outros, não é esse ponto que eu tento recuperar. Alguém confiante, que SABE o que tem que fazer. E que CONSEGUE fazer o que quer. Sem traçar cursos de ação, sem tentar prever cenários, sem ficar quebrando a cabeça com as consequências. Vai lá, faz e DÁ CERTO. Sem nem um pingo de medo, de receio.
E eu ainda seria assim. Se não fosse pelos anos que se seguiram...
Mas isso é assunto pra um post futuro.
Há, foi bom lembrar disso. Saber que a minha covardia é coisa da minha cabeça, que eu já fui confiante e posso ser novamente. Só preciso achar a raiz daqueles pensamentos. Mas depois de tantos anos sendo quem eu sou hoje, é difícil apagar as coisas ruins e voltar a ser como eu era quando criança. Mesmo despedaçando toda a minha memória. Trágico.
Qualquer dia eu continuo a história.
John's out.
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